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Professor da USP defende pensamento crítico e coloca educação do campo no centro do debate sobre o futuro da Amazônia

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A educação não deve se limitar à transmissão de conteúdos ou à preparação de profissionais para o mercado de trabalho. Sua função também está na formação de pessoas capazes de interpretar a sociedade, compreender suas contradições e participar criticamente das decisões que interferem na vida coletiva. Essa foi uma das reflexões centrais apresentadas pelo professor titular de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), Manoel Fernandes de Sousa Neto, durante a palestra de abertura do XEPETUNIR, realizada no campus da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), em Rolim de Moura.

Com o tema “A Geografia e os Desafios da Educação do Campo na Amazônia”, a atividade integrou a programação do evento realizado nos dias 22 e 23 de outubro de 2026, reunindo professores, pesquisadores, acadêmicos e representantes da comunidade. A mediação foi conduzida pelo professor Dr. Fernando Bilhalva Vitória, da UNIR.

Ao longo da exposição e do debate com os participantes, o palestrante relacionou a organização dos territórios às transformações econômicas, políticas, ambientais e educacionais. Sua abordagem, fundamentada principalmente na tradição crítica da Geografia e em autores marxistas, apresentou questionamentos sobre o modelo de desenvolvimento e seus efeitos sobre as populações amazônicas.

Educação do campo vai além dos limites da escola rural

Uma das principais discussões envolveu a diferença entre oferecer educação em uma comunidade rural e construir uma proposta educacional que reconheça a realidade social, cultural e econômica das pessoas que vivem no campo.

Para o professor, a educação do campo possui características próprias, relacionadas aos modos de produção, às relações comunitárias, aos conhecimentos tradicionais e às particularidades de cada território.

“A escola da educação do campo, ela educa a sociedade inteira. Ela não educa apenas quem está no campo”, afirmou.

O pesquisador destacou que existem diferentes formas de organização do ensino rural, incluindo escolas multisseriadas, Escolas Famílias Agrícolas e experiências de pedagogia da alternância, que procuram estabelecer relações entre a aprendizagem escolar e as atividades desenvolvidas nas comunidades.

Na avaliação apresentada, essas experiências não devem ser analisadas exclusivamente por indicadores administrativos ou financeiros. Também precisam ser consideradas suas contribuições para a formação humana, a permanência das famílias no campo e a valorização dos conhecimentos locais.

Fechamento de escolas e critérios econômicos

O fechamento de unidades escolares rurais recebeu atenção especial durante a palestra. Segundo Manoel Fernandes, o processo não pode ser explicado apenas pela redução da população no campo ou pelas mudanças na produção agropecuária.

O professor argumentou que decisões educacionais passaram a ser influenciadas por uma lógica de financeirização, na qual custos de manutenção, concentração de estruturas e critérios de eficiência econômica podem se sobrepor às necessidades das comunidades.

Na sua interpretação, a escola corre o risco de deixar de ser compreendida como instituição de formação social para ser avaliada predominantemente pelos resultados que oferece ao sistema econômico.

A reflexão suscita questões relevantes para municípios amazônicos, onde distâncias, condições das estradas, transporte escolar e dispersão das comunidades tornam mais complexa a oferta de ensino.

Nesse contexto, a discussão ultrapassa a quantidade de escolas existentes. Também envolve a qualidade da educação, as condições de acesso, os custos públicos e os efeitos sociais do afastamento dos estudantes de suas comunidades.

Amazônia como floresta cultivada e patrimônio de conhecimentos

Outro ponto de destaque foi a compreensão da Amazônia como território historicamente transformado pela presença humana.

Ao citar os estudos dos geógrafos Carlos Walter Porto-Gonçalves e Sueli Ângelo Furlan, o palestrante abordou a participação dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na formação e conservação de ambientes florestais.

“A Amazônia é uma floresta cultivada”, declarou.

A afirmação foi utilizada para questionar a interpretação da floresta como um espaço exclusivamente natural, separado das sociedades que historicamente viveram e produziram conhecimentos em seus territórios.

Segundo o professor, práticas ancestrais de manejo, formas de organização comunitária e conhecimentos sobre a biodiversidade também constituem elementos importantes da história amazônica.

Nessa perspectiva, a conservação ambiental está relacionada não apenas à proteção dos recursos naturais, mas também à permanência dos povos e à transmissão dos conhecimentos acumulados entre gerações.

O pesquisador argumentou que a expulsão de comunidades tradicionais e a desestruturação de seus modos de vida podem representar também a perda de saberes sobre o funcionamento e a conservação da floresta.

Capitalismo, desenvolvimento e as contradições da sociedade

A análise econômica ocupou parte significativa da palestra. Manoel Fernandes discutiu as transformações do capitalismo desde a segunda metade do século XX, abordando a expansão do capital financeiro, a reorganização do trabalho e a influência de políticas neoliberais sobre os serviços públicos.

Para fundamentar seus argumentos, recorreu a autores como Karl Marx, David Harvey, Henri Lefebvre e Milton Santos, relacionando processos históricos à organização dos espaços geográficos.

Na interpretação apresentada, a Amazônia ocupa uma posição estratégica diante da crescente disputa internacional por terras, minerais, água, biodiversidade e outros recursos naturais.

O professor questionou os efeitos sociais e ambientais de modelos econômicos baseados na exploração intensiva desses recursos, defendendo que o desenvolvimento também seja analisado pelas condições de vida das populações.

As declarações expressam uma perspectiva crítica específica sobre a economia e o capitalismo. Durante o debate, os participantes também levantaram questionamentos sobre o papel do Estado, a concentração da riqueza e os limites dos conceitos utilizados para explicar as transformações econômicas.

Pensamento crítico exige estudo e capacidade de questionar

Um dos momentos mais significativos da discussão ocorreu quando o professor abordou o papel dos estudantes, dos pesquisadores e da própria universidade na compreensão das transformações sociais.

“Qual a principal tarefa do movimento estudantil? É estudar”, afirmou.

Na sequência, ressaltou que a atuação intelectual exige dedicação à compreensão dos processos históricos, e não apenas posicionamentos diante dos acontecimentos.

Para o palestrante, o pensamento crítico deve incluir a capacidade de revisar conceitos, reconhecer contradições e questionar as próprias interpretações.

“Eu mesmo tenho que fazer autocrítica permanentemente”, declarou.

Esse entendimento apareceu também nas discussões sobre a relação entre lógica formal, pensamento dialético, pós-modernidade e fragmentação dos movimentos sociais.

Manoel Fernandes defendeu que os fenômenos não sejam analisados isoladamente, mas considerados em suas relações históricas, econômicas e sociais. Sua crítica à fragmentação do pensamento parte do argumento de que problemas coletivos exigem interpretações capazes de compreender a sociedade em sua totalidade, sem desconsiderar suas diferenças.

Inteligência artificial, tecnologia e formação humana

O avanço tecnológico também entrou no debate, especialmente a presença da inteligência artificial e das plataformas digitais na educação e na vida cotidiana.

O professor reconheceu que as ferramentas digitais podem ser utilizadas no ensino e na produção do conhecimento, mas manifestou preocupação com a dependência tecnológica e seus possíveis efeitos sobre a memória, a autonomia intelectual e a capacidade de reflexão.

Na sua avaliação, o acesso imediato às informações não substitui necessariamente o processo de compreensão, interpretação e construção do conhecimento.

As observações levantam uma discussão atual sobre os limites e as possibilidades das novas tecnologias na formação educacional: como aproveitar ferramentas digitais sem reduzir a participação ativa dos estudantes na aprendizagem?

O debate também abordou as condições de trabalho dos professores, a expansão do ensino a distância e a importância da convivência presencial como parte da experiência universitária.

Universidade pública como espaço de debate e formação

Na parte final, Manoel Fernandes voltou sua atenção à função social das instituições públicas de ensino e à formação dos professores.

O pesquisador ressaltou que a universidade deve ser um ambiente no qual diferentes experiências, conhecimentos e interpretações possam ser apresentados, discutidos e confrontados.

Ao tratar do papel dos currículos na formação das novas gerações, afirmou:

“A disputa por currículo escolar é uma disputa de território.”

Para ele, as decisões sobre os conteúdos ensinados, os métodos utilizados e as condições oferecidas aos estudantes também refletem escolhas sobre o tipo de sociedade que se pretende construir.

O professor manifestou preocupação com a precarização do trabalho docente e com propostas que, em sua avaliação, subordinam a educação a interesses estritamente econômicos.

“Nós não podemos ser trocados por televisões, nós não podemos ser trocados por tutoria”, declarou ao defender a importância da atuação dos professores na formação intelectual.

Defesa da educação do campo na UNIR

A palestra também apresentou uma defesa direta da continuidade e do fortalecimento da formação de professores voltada às comunidades rurais e tradicionais da Amazônia.

“Defender o curso de educação do campo aqui da UNIR é uma tarefa de todo mundo, mesmo de quem não é do curso de educação do campo”, afirmou Manoel Fernandes.

A declaração aproximou a discussão acadêmica da realidade regional e destacou a responsabilidade das instituições públicas na formação de profissionais preparados para atuar em territórios com características sociais, culturais e ambientais específicas.

Para o pesquisador, valorizar a educação do campo significa reconhecer que o conhecimento científico pode dialogar com os saberes construídos nas comunidades, incluindo práticas agroecológicas, experiências de povos ribeirinhos e formas tradicionais de relação com a natureza.

O desafio de transformar reflexão em conhecimento

A palestra de abertura do XEPETUNIR reuniu interpretações críticas sobre o funcionamento da sociedade contemporânea, algumas delas marcadas por posicionamentos políticos e econômicos contundentes.

Mais do que a concordância ou discordância com essas interpretações, o debate evidenciou o papel da universidade como espaço de produção de conhecimento, investigação e questionamento.

As discussões sobre fechamento de escolas rurais, financiamento da educação, preservação ambiental e mudanças tecnológicas também apontam para a necessidade de pesquisas, indicadores e experiências concretas que permitam avaliar os problemas apresentados, especialmente no contexto de Rondônia.

Ao defender a permanência das escolas e a formação de professores, Manoel Fernandes sintetizou parte de sua posição com a expressão “Mais escolas, menos prisões”, associando as prioridades educacionais às escolhas políticas da sociedade.

O encontro deixou uma questão que ultrapassa os limites do ambiente acadêmico: como construir uma educação capaz de preparar as novas gerações para o trabalho e, ao mesmo tempo, desenvolver autonomia intelectual, consciência histórica e capacidade de pensar criticamente sobre o território em que vivem?


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